Matéria na Íntegra

Um levantamento recente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico revelou um dado preocupante: as famílias brasileiras estão destinando, em média, 11,8% de seus gastos mensais para pagar energia — o maior índice entre as principais economias analisadas.

Em comparação, países como Estados Unidos (6,3%), Reino Unido (5,8%) e Canadá (5,8%) apresentam um peso bem menor no orçamento doméstico.

O que encarece a energia no Brasil

De acordo com uma análise do BTG Pactual, três fatores principais ajudam a explicar esse custo elevado:

  • alta carga tributária;
  • encargos do setor elétrico;
  • custos elevados de transmissão.

Um dos pontos mais críticos está justamente na transmissão de energia, cujo custo disparou cerca de 630% entre 2013 e 2023, pressionando ainda mais a conta final paga pelo consumidor.

Um paradoxo energético

Mesmo com esse cenário de preços altos, o país enfrenta outro problema: o desperdício de energia. Por falta de infraestrutura adequada para armazenamento, parte da produção simplesmente não é aproveitada.

No terceiro trimestre de 2025, por exemplo, cerca de um terço de toda a energia solar que poderia ter sido gerada foi descartada. No caso da energia eólica, mais de 20% da produção também deixou de ser utilizada.

Esse contraste evidencia um desafio estrutural do setor elétrico brasileiro: ao mesmo tempo em que a energia pesa no bolso da população, o país ainda não consegue aproveitar plenamente sua capacidade de geração — especialmente nas fontes renováveis.

Onde o governo entra

1. Impostos na conta de luz
Grande parte do valor pago pelas famílias inclui tributos definidos por governos federal e estaduais, como ICMS e PIS/COFINS. Esses encargos elevam significativamente o custo final da energia no Brasil.

2. Encargos regulatórios
O setor elétrico é altamente regulado pela Agência Nacional de Energia Elétrica, que autoriza diversos encargos incluídos na tarifa. Esses valores financiam políticas públicas, subsídios (como tarifa social) e programas do setor — mas acabam sendo repassados ao consumidor.

3. Planejamento e infraestrutura
O governo, por meio do Ministério de Minas e Energia, é responsável pelo planejamento energético do país. A expansão das linhas de transmissão, por exemplo, depende de leilões, concessões e decisões públicas. A demora nesses processos contribui para gargalos — como o aumento de custos e o desperdício de energia.

4. Falta de investimento em armazenamento
Apesar do avanço na geração solar e eólica, o Brasil ainda investe pouco em tecnologias de armazenamento (como baterias). Esse tipo de iniciativa depende de políticas públicas, incentivos e regulação — áreas onde o governo tem papel direto.

5. Modelo do setor elétrico
O próprio modelo energético brasileiro, desenhado e atualizado pelo governo ao longo dos anos, influencia diretamente os preços. Contratos antigos, subsídios cruzados e regras do mercado livre vs. regulado impactam quanto cada consumidor paga.

O governo não é o único responsável, mas tem forte influência em praticamente todos os pontos: impostos, regras, investimentos e planejamento. Isso explica por que, mesmo sendo um país com grande capacidade de geração (principalmente renovável), o Brasil ainda enfrenta energia cara e, ao mesmo tempo, desperdício de produção.